Alfa Romeo 16C: o carro de dois motores que antecipou soluções extremas na engenharia


Protótipo concebido sob a direção esportiva de Enzo Ferrari e pilotado por Tazio Nuvolari uniu dois quatro-cilindros para formar um raro dezesseis em linha superalimentado, símbolo da busca por desempenho no automobilismo dos anos 1930

Poucos projetos da história do automobilismo expressam com tanta clareza a experimentação técnica quanto a Alfa Romeo 16C, conhecido como "The Beast" (A besta). Desenvolvido na primeira metade da década de 1930, quando Enzo Ferrari ainda comandava a equipe esportiva da marca italiana, o modelo tornou-se célebre tanto por sua associação com Tazio Nuvolari quanto pela solução mecânica pouco convencional que adotou: a união de dois motores independentes para formar um único conjunto.

A tração permanecia no eixo traseiro, acionado por um diferencial posicionado à saída da caixa de câmbio de três marchas. Para acomodar a arquitetura incomum do conjunto mecânico, o assento do piloto foi deslocado para cima da transmissão, enquanto os tanques de combustível passaram a ser instalados nas laterais da carroceria, em dois pontões.

Um dispositivo localizado sob a alavanca de câmbio permitia ao piloto desacoplar temporariamente os motores, possibilitando colocá-los em funcionamento antes da completa sincronização. O sistema também tornava viável conduzir o carro com apenas um dos motores em operação, recurso útil em situações de emergência ou para preservar a mecânica.

Mais do que um carro de competição, o 16C representou um laboratório de ideias em uma era na qual criatividade e ousadia ainda definiam os limites do desempenho.

Dois motores, um só conjunto

A designação “16C” refere-se à arquitetura do projeto. Em vez de desenvolver um novo bloco de oito cilindros, os engenheiros da Alfa Romeo optaram por acoplar dois motores de oito cilindros em linha, montados longitudinalmente, em série, já que o Alfa Romeo 8C 35 não conseguia enfrentar os potentes e poderosos carros da Mercedes e Auto Union. Os dois conjuntos eram conectados por um sistema de engrenagens e eixos que unificava o funcionamento dos virabrequins, criando, na prática, um dezesseis em linha.

Em janeiro de 1935, Enzo Ferrari entregou a incumbência ao chefe técnico da equipe, Luigi Bazzi, que teve que projetá-lo e construí-lo em apenas quatro meses, para poder participar do Grande Prêmio de Trípoli e de Avus em Berlim .Cada unidade de oito cilindros era equipada com compressor volumétrico tipo Roots, responsável pela sobrealimentação. O deslocamento total ficava em torno de 3,1 litros, com o objetivo de extrair potência superior à dos rivais sem recorrer a um projeto inteiramente novo.

Potência, torque e transmissão

Com os dois motores trabalhando de forma sincronizada, o 16C entregava entre 300 e 540 cavalos de potência a cerca de 5.400 rpm, patamar elevado para os padrões do período pré-Segunda Guerra. O torque, estimado entre 40 e 45 kgfm, garantia forte capacidade de aceleração, especialmente em saídas de curva e provas de subida.

A força era transmitida às rodas traseiras por meio de câmbio manual de três marchas, dimensionado para suportar a carga mecânica imposta pela sobrealimentação dupla. O conjunto priorizava robustez, ainda que à custa de maior complexidade de manutenção. Um modelo inicial foi preparado para testes realizados na autoestrada Brescia-Bérgamo, em 10 de abril de 1935, por Attilio Marinoni e Tazio Nuvolari. O veículo ultrapassou a velocidade de 280 km/h, e os dois declararam à imprensa estar confiantes de que poderiam atingir 340 km/h com apenas algumas modificações.

Chassi, freios e comportamento

O chassi utilizava estrutura tubular de aço, com carroceria em alumínio moldado à mão, seguindo os princípios construtivos mais avançados da época. A adoção de dois motores em linha impôs um capô longo e exigiu cuidados especiais de balanceamento para preservar a dirigibilidade.

O sistema de frenagem era composto por freios a tambor de acionamento mecânico, por cabos e alavancas. Embora padrão nos anos 1930, esse tipo de freio demandava habilidade do piloto em situações de desaceleração prolongada, sobretudo em provas de alta velocidade.

Desempenho em pista

Dependendo da relação de transmissão e da configuração aerodinâmica, a Alfa Romeo 16C atingia velocidade máxima próxima de 328 km/h, colocando-se entre os carros mais rápidos de sua geração. Em circuitos de alta, destacava-se pelo ímpeto nas retas, ainda que a complexidade mecânica limitasse sua longevidade competitiva, aliado a um altíssimo consumo de combustível.

A prova que melhor ilustra os limites do projeto foi o Grande Prêmio de Trípoli, disputado em 12 de maio de 1935, no circuito de Mellaha. Os dois exemplares do Bimotore alinharam no grid: um conduzido por Tazio Nuvolari, outro por Louis Chiron. Ao final, os carros terminaram em quarto e quinto lugares, respectivamente, distantes dos Mercedes-Benz W25 de Rudolf Caracciola e Luigi Fagioli e do Auto Union Type B de Achille Varzi.

Apesar da potência elevada, o comportamento em pista expôs problemas estruturais do conceito. Os pilotos enfrentavam dificuldade para controlar a entrega de força na saída das curvas, instabilidade em alta velocidade nas retas, que impedia os motores de operar em todo o seu potencial, e um desgaste extremo dos pneus. O consumo de borracha foi tão elevado que, durante a corrida, Nuvolari precisou trocar os pneus traseiros oito vezes, comprometendo qualquer chance de disputar a vitória.

Após uma série de modificações destinadas a melhorar o acerto do conjunto, os dois Bimotore voltaram às pistas em 26 de maio de 1935, na 5ª Internationales Avusrennen, em Berlim, novamente com Nuvolari e Chiron ao volante.

Os ajustes, porém, não resolveram as limitações do projeto. Mesmo em um traçado conhecido pelas longas retas do AVUS, teoricamente favorável à elevada potência do carro, a superioridade dos rivais voltou a se impor. O Mercedes-Benz W25B de Luigi Fagioli venceu a prova, enquanto Chiron terminou em segundo, a 1 minuto e 35 segundos do líder. Nuvolari abandonou antes do final, confirmando que os problemas de confiabilidade e de estabilidade em alta velocidade ainda comprometiam o desempenho do Bimotore.

Nuvolari ao volante

Nascido em Mântua, Tazio Nuvolari foi decisivo ao encerrar qualquer expectativa de evolução competitiva do projeto. Após as experiências em Trípoli e Berlim, o piloto comunicou a Enzo Ferrari e ao engenheiro Luigi Bazzi que o Bimotore era inadequado para provas em circuito, insistindo no retorno ao antigo,  e já considerado tecnicamente obsoleto, Alfa Romeo P3, enquanto se aguardavam “tempos e carros melhores”.

A avaliação mostrou-se correta poucas semanas depois. Em 28 de julho de 1935, Nuvolari liderou a vitória no VIII Grande Prêmio da Alemanha, uma das provas mais emblemáticas da história do automobilismo, derrotando os poderosos carros alemães em Nürburgring e confirmando que a solução tradicional ainda era a mais eficaz naquele momento. Embora o projeto não tivesse se mostrado viável para corridas de circuito, decidiu-se que o Bimotore não seria abandonado sem ao menos cumprir um último objetivo técnico: a busca por recordes de velocidade em linha reta. Um dos protótipos foi preparado para tentativas nos marcos de quilômetro e milha lançados.

Em 15 de junho de 1935, na autoestrada Florença–Mare, Nuvolari estabeleceu novos recordes europeus de velocidade, atingindo 321,428 km/h no quilômetro lançado e 323,125 km/h na milha lançada, com velocidade máxima de 364 km/h. As tentativas não estiveram isentas de risco: durante os testes, o piloto enfrentou ventos fortes e severa instabilidade, escapando por pouco de dois acidentes.

Com os recordes alcançados, o objetivo final foi considerado cumprido. O Bimotore foi definitivamente deixado de lado, e a equipe concentrou esforços no desenvolvimento do projeto que marcaria uma nova fase da Alfa Romeo: a futura “Alfetta”.

Um experimento que virou referência

Mais do que pelos resultados esportivos, o 16C entrou para a história como um exemplo extremo de engenharia aplicada à competição. Ao unir dois motores independentes para formar um único conjunto superalimentado, a Alfa Romeo antecipou conceitos de modularidade e experimentação que só voltariam a ser explorados décadas depois em protótipos e projetos especiais.

Em uma era de soluções artesanais e riscos calculados, o 16C permanece como um capítulo singular do automobilismo.

 

Ficha técnica — Alfa Romeo 16C

Motor:
– Arquitetura: dois motores de oito cilindros em linha, acoplados longitudinalmente (um motor dianteiro e outro traseiro)
– Configuração resultante: 16 cilindros em linha
– Alimentação: dois compressores volumétricos (Roots)
– Cilindrada total: aproximadamente 3,1 litros

Potência: cerca de 280 a 540 cv a ~5.400 rpm
Torque: estimado entre 40 e 45 kgfm

Transmissão:
– Câmbio manual de 3 marchas
– Tração traseira

Chassi e carroceria:
– Estrutura tubular de aço
– Carroceria em alumínio

Freios:
– A tambor, acionamento mecânico

Velocidade máxima: aproximadamente 364 km/h (variável conforme relação e aerodinâmica)

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